Há muito mais trigo do que joio no jornalismo

Não lembro em que momento da minha vida eu decidi que seria jornalista. Mas lembro de que nunca pensei que seria jornalista para trabalhar na Globo. Minha intenção era mesmo escrever. E só. Nunca parei para avaliar que jornalista ganha mal (mas deveria!), trabalha muito e não tem muita expectativa de crescimento profissional. Se eu tivesse parado para pensar, teria prestado Direito para ser promotora de Justiça. Ainda bem que não pensei. Tenho orgulho de ser jornalista. Sou feliz como jornalista, apesar dos pesares. Quantos pesares.

Imprensa marrom. Imprensa fascista. Imprensa vendida. Imprensa reacionária. Imprensa comunista. A imprensa inventou. A imprensa plantou. A imprensa está falida. É tudo culpa da imprensa, já diria Lula, Collor, FHC e Renan Calheiros. Certeza que você vai atrás dessa história? Bobagem. Fica quietinha na sua. Faz o seu. O mundo é assim mesmo. Deixa pra lá. Melhor você não mexer com isso. Cuidado com os políticos. Cuidado com os religiosos. Cuidado, cuidado, cuidado.

A imprensa respira com a ajuda de aparelhos. O mundo mudou e a imprensa, quanta ironia, esperou sentada. Agora precisa se reinventar. E faz isso ao custo de demissões. Quantas demissões. Salve-se quem puder. Mas jornalista é um bicho que gosta do sofrimento e que se contenta com pouco. Pouco dinheiro, pouca condição de trabalho, poucas horas dormidas.  Trabalhei oito anos em redações de jornais. Era estranha a sensação de reportar uma história de trabalho escravo e, ao mesmo tempo, trabalhar para um jornal que não se importava minimamente com as leis trabalhistas. E, garanto, isso é senso comum. Repórteres denunciam situações que muitas vezes eles mesmos vivenciam em seus próprios locais de trabalho. Ser jornalista não é só matar um leão por dia. É roer o osso, que de carne, só tem o gosto. Mas como é bom encontrar esse gostinho de carne de vez em quando ao contar uma boa história. Uma história que pode ajudar. Uma história que pode comover. Uma história que pode mudar a vida de pessoas. Uma história que pode chacoalhar o mundo. Nem que seja só o seu mundo.

Se eu gostava de trabalhar em redação, gosto ainda mais de trabalhar com a tal comunicação corporativa. Mas não aceito argumentos rasos contra a imprensa, argumentos esses que são ovacionados por todos aqueles que, na verdade, somente temem que suas maracutaias e segredos sejam descobertos por corajosos repórteres e fotógrafos e depois retratadas por exímios observadores na forma de cartunistas e chargistas. Se não fossem esses profissionais, aí assim conheceríamos a verdadeira pornochanchada.

Ninguém aqui precisa dizer que há muito veículo de imprensa por aí que não cumpre o seu papel de ajudar no processo de formar opiniões e pensamentos críticos e, ao contrário do que deveriam, só prestam mesmo ao desserviço. No entanto, meu círculo de amigos ainda é formado majoritariamente por jornalistas e, posso garantir, que se separarmos o joio do trigo, vai sobrar muito mais trigo do que joio por aí. E não há bomba, atentado ou ameaça capaz de destruir essa plantação toda. Je suis Charlie.

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